Revelação, redenção, recomeço

O fim da Andurá como minha profissão e seu reinício como um projeto pessoal.

4 minuto(s) de leitura.

Um dos motivos de eu ter começado a escrever este blog foi para contar dos meus “fracassos”. Pode parecer meio estranho uma pessoa fazer todo um planejamento, pensar num nome, numa logo, num design, que por mais simples que seja, é bonito, estudar tecnologias e escrever o código de tudo isso para simplesmente contar seus fracassos. Mas se é para fazer, que façamos bem feito, ué!

Então, a questão é: a Andurá “acabou”. Mas eu realmente não quero levar esta minha história para o lado do fracasso. Não vejo o fim da Andurá desta forma, mas sim como um aprendizado que durou o tempo que teve que durar. Pode parecer cliché, mas é a mais pura verdade. Antes deste “fracasso” houveram muitos sucessos, muitos momentos de alegria, orgulho e muitos sonhos realizados. Muitas foram as pessoas que aprendi a admirar, como o Natsuki Ishitani (Ishitani-san, sei que tu não irás ler este texto, mas queria deixar um muito obrigado por cada vídeo e dizer que fostes a pesssoa que fez eu amar a marcenaria). Houveram vários momentos no qual eu colocava um heavy metal / hard rock / progressivo para ouvir e esquecia da vida lixando tábuas, entrando num perfeito fluxo mental. Muita superação e provação que sou capaz de fazer o que eu quiser. Aprendi coisas sobre mim e coisas sobre meu irmão que eu nunca descobriria em outras situações. Vivi aquele ambiente empoeirado da forma mais intensa que consegui, como sempre faço quando executo qualquer coisa.

Acontece que, já há alguns meses, eu não vinha mais vivendo as coisas boas que outrora sentia. A ida me causava um pouco de ansiedade e estar lá, um certo sentimento de “estar perdido”. Começar qualquer serviço novo era desgastante. Eu não posso dizer a mim mesmo como me sentir, apenas sinto esses sinais elétricos e bioquímicos que percorrem meu sistema nervoso. Apesar de tudo eu lutei, insisti durante um tempo, afinal, poderia ser algo passageiro, um resquício da minha depressão, mas não era. Estes sentimentos novos continuavam ali, chegaram, pegaram um banquinho e ficaram. Além disso, veio a crise econômica causada pela COVID-19 e aquela percepção que eu tinha de que a mão de obra de um marceneiro não era valorizada apenas foi confirmada. Então, no final de junho, joguei a toalha e simplesmente aceitei. E a partir dali, mesmo com o mundo caindo sobre minha cabeça, posso dizer que não está doendo, não estou triste e nem desesperado por isso. Pelo contrário, tudo o que tem acontecido comigo nas últimas semanas tem me deixado tranquilo e feliz.

A Andurá, como árvore sagrada que é, ensinou para mim várias lições de vida, e uma delas é que é impossível tentar controlar essa montanha-russa chamada vida. As coisas simplesmente acontecem e a gente simplesmente sente. Todo o controle da situação que achamos ter num dia pode, de uma hora para outra, ficar perdido, sem que entendamos o motivo e nem exatamente quando tudo começou a se desgovernar.

Eu deixo de ser marceneiro de modo profissional e a Andurá passa a ser apenas um projeto paralelo, um divertimento de final de semana. O sonho de construir minha casa e meu mobiliário continuam e toda as experiências e equipamentos adquiridos serão extremamente importantes para isto. Queria agradecer muitas pessoas que estiveram comigo nestes últimos cinco anos, mas existem três em especial: a primeira é o meu sócio de trabalho e de vida, o meu irmão Otávio, por estar ao meu lado em todos os momentos, bons e ruins, sem nunca desistir. A segunda é minha vó, pelo apoio e por ter cedido o espaço em seu terreno para a construção da marcenaria e o espaço em sua casa para servir como depósito de parte do nosso material. E a terceira é o meu pai por toda força que me deu, sem ele não sei o que teria sido de mim nestes últimos tempos. Obrigado por apoiarem toda e qualquer decisão tomada por mim, vocês três são especiais.

Andurá, que sua ira e o fogo de suas chamas queime tudo à sua volta para que a nova vida que surja seja mais linda e bela que a que ficou para trás. Sigo com um sentimento misto, na maior parte do tempo leve e tranquilo, com coragem e esperança que tempos melhores virão, mas de vez em quando ainda batem algumas dúvidas, um pouco de inseguranças e medos, mas repito, não posso dizer a mim mesmo como me sentir. “Tempo de pôr os pés ao caminho.”

🎼
Gather around •
All the things that we admire •
To be here is where I wanted to be •
To abandon who I was •
🎼

Soen - Lotus